Talvez se escrevesse tudo o que sinto, voltaria a ter força para tudo o que me espera.
Parece que a pouco e pouco vou acordando de um sonho, um sonho que não queria ter sonhado e que tudo apenas não passasse de um sonho... mas a verdade é que é real... a realidade vivesse todos os dias...
... Não me lembro de me ter despedido dele.. pelo menos em vida.. não me lembro qual a ultima vez que o vi...não me consigo lembrar. Lembro -me de uma noite à pouco tempo, o telemóvel ter tocado, do outro lado a minha mãe, respiração acelerada e voz tremula, dizia-me: o teu pai foi para o hospital...Levantei-me, peguei
nas chaves do carro e lá fui. Música ligada no carro, para me fazer companhia. Pensamentos que corriam a mil, perguntas, angustias e MEDO... muito medo do que iria encontrar...
Estacionei dentro do hospital, a noite estava calma, uma chuva que teimava em cair, mas devagar, como que só a marcar presença.Sem chapéu ou agasalhos, corri até às urgências...Percorri corredores e salas ... não o encontrei... As pessoas olhavam me ... imagino que não saberiam imaginar a minha angustia, talvez por este meu sorriso e olhos brilhantes me acompanharem em todos os momentos.
Sem saber onde entrar mais, olhei a volta, todas as pessoas pareciam cansadas e sem energia, não me atrevi a falar-lhes... o meu olhar parou numa sala de consulta, linha amarela....Entrei...
Entrei numa sala de consulta... Disse que procurava o meu pai, de repente lembrei-me que ninguém me saberia identifica-lo desta forma. Perguntei se um velhinho, pequenino, não teria dado entrada ali, o meu pai tinha 76 anos, mas aparentava bem mais... ar frágil, figura pequena, franzina...O medico sorriu, e apontando para uma sala disse-me :" Veja ali!".
Lá estava ele, ali, diante de mim, sentado, ar triste, cansado, com um olhar perdido...sorriu quando me viu, pediu -me lenços ... horas passaram... pediu-me agua ....
O meu pai, há muito que não ouvia bem, nunca cheguei a perceber de facto o que ouviria ele, por vezes, parecia ouvir tudo, tinha outras vezes que tudo trocava, e outras que nada ouvia..
Pediu-me agua, olhei em volta e vi o enfermeiro, dirigi-me a ele e perguntei se seria possivel dar-lhe agua. O enfermeiro disse que iria trazer.
Falei com o meu pai e disse-lhe: A agua já vem!
Olhou-me com aquele olhar que lhe era caracterizante e disse-me : "O quê? a agua faz bem? eu sei, mas tu dizes que a agua faz bem, mas não me dás..." Ri-me, assim como todas as pessoas que ali estavam...
Terça-feira... quando a mãe me ligou, senti algo diferente, como que uma paz me tivesse penetrado a alma...
Levei a Cuca à escola, que saiu do carro com os olhos cheios de lágrimas repetindo o que eu lhe dissera momentos antes, "é o ciclo natural da vida"...
É! pensei, mas doi, minha pequenina, e ela sabe-o.
Momentos depois, estava diante do que era agora apenas o corpo do meu pai, engraçado, não me parecia tão frágil e franzino como sempre... também não encontrei no rosto qualquer expressão de tristeza ou aflição...parecia tranquilo e em paz... Fechei a porta e fiquei a olhar para o corpo, toquei... estava quente...por momentos pensei... dorme...Logo sem querer as lágrimas evadem-me o rosto... sem controle começo a chorar " Pai, não me esperaste "morreste-me ... nada consegui fazer. PAI!!!PAI!!! chamei baixinho, na esperança secreta que me olhasses e dissesses, " Deixa-me descansar, estou apenas a descansar"
A porta abre-se a minha mãe, coloca em cima da cama, aquela que deverá ser a melhor roupa do meu velhinho...
É para o vestir? pergunto.
Começo por o despir como se fosse algo natural e assim, quase sem dar conta, acabo por o vestir.
A campainha toca, várias pessoas entram e dizem frases feitas que são próprias para a altura." coitadinho...era tão boa pessoa" não tinha nada que dizer deste Homem" " era tão alegre" "Ainda
ontem nos rimos"
A tarde,
Lá estava o corpo na capela, eu e ele apenas... Foi-me entregue a mim... assim foram muitas das vezes em que foi para o hospital, eu e ele.
Olho para ele, toco-lhe , ajeito o corpo passo a mão no seu rosto ... agora um corpo frio...olho nos olhos ... lembro-me de ter pensado "as pálpebras fechadas para sempre" Assim é a vida! Mas deveria ser de outra forma? seria mais fácil se houvesse tempo para despedir-me? para que todos se despedissem?
O dia parece não ter fim, chegam pessoas da família vindas do Alentejo....trazem a expressão de tristeza estampada no rosto... doi-me ao ver que outras pessoas também sofrem. Custa-me ver um primo que o Abraça quase o arrancando do caixão...No fundo sei que estará bem... mas Pensar que se olha pela ultima vez é triste... Uma tristeza difícil de se explicar...um Adeus para sempre.. ficam as memórias... o toque esse será feito através do coração e do pensamento. Adeus pai! Serei sempre a filha casula, reguila e esgrouviada como ele me dizia... quando era criança, sempre ouvi isto da sua boca: " Esta miúda é rija, rebelde e esgrouviada, poderia ter sido um rapaz, ( era eu quem ia ao futebol com ele, era comigo com quem falava do sporting)o meu pai acrescentava, " por de trás de tudo isto, esta moça, tem um enorme e bom coração!"
Adeus Pai...
Parece que a pouco e pouco vou acordando de um sonho, um sonho que não queria ter sonhado e que tudo apenas não passasse de um sonho... mas a verdade é que é real... a realidade vivesse todos os dias...
... Não me lembro de me ter despedido dele.. pelo menos em vida.. não me lembro qual a ultima vez que o vi...não me consigo lembrar. Lembro -me de uma noite à pouco tempo, o telemóvel ter tocado, do outro lado a minha mãe, respiração acelerada e voz tremula, dizia-me: o teu pai foi para o hospital...Levantei-me, peguei
nas chaves do carro e lá fui. Música ligada no carro, para me fazer companhia. Pensamentos que corriam a mil, perguntas, angustias e MEDO... muito medo do que iria encontrar...
Estacionei dentro do hospital, a noite estava calma, uma chuva que teimava em cair, mas devagar, como que só a marcar presença.Sem chapéu ou agasalhos, corri até às urgências...Percorri corredores e salas ... não o encontrei... As pessoas olhavam me ... imagino que não saberiam imaginar a minha angustia, talvez por este meu sorriso e olhos brilhantes me acompanharem em todos os momentos.
Sem saber onde entrar mais, olhei a volta, todas as pessoas pareciam cansadas e sem energia, não me atrevi a falar-lhes... o meu olhar parou numa sala de consulta, linha amarela....Entrei...
Entrei numa sala de consulta... Disse que procurava o meu pai, de repente lembrei-me que ninguém me saberia identifica-lo desta forma. Perguntei se um velhinho, pequenino, não teria dado entrada ali, o meu pai tinha 76 anos, mas aparentava bem mais... ar frágil, figura pequena, franzina...O medico sorriu, e apontando para uma sala disse-me :" Veja ali!".
Lá estava ele, ali, diante de mim, sentado, ar triste, cansado, com um olhar perdido...sorriu quando me viu, pediu -me lenços ... horas passaram... pediu-me agua ....
O meu pai, há muito que não ouvia bem, nunca cheguei a perceber de facto o que ouviria ele, por vezes, parecia ouvir tudo, tinha outras vezes que tudo trocava, e outras que nada ouvia..
Pediu-me agua, olhei em volta e vi o enfermeiro, dirigi-me a ele e perguntei se seria possivel dar-lhe agua. O enfermeiro disse que iria trazer.
Falei com o meu pai e disse-lhe: A agua já vem!
Olhou-me com aquele olhar que lhe era caracterizante e disse-me : "O quê? a agua faz bem? eu sei, mas tu dizes que a agua faz bem, mas não me dás..." Ri-me, assim como todas as pessoas que ali estavam...
Terça-feira... quando a mãe me ligou, senti algo diferente, como que uma paz me tivesse penetrado a alma...
Levei a Cuca à escola, que saiu do carro com os olhos cheios de lágrimas repetindo o que eu lhe dissera momentos antes, "é o ciclo natural da vida"...
É! pensei, mas doi, minha pequenina, e ela sabe-o.
Momentos depois, estava diante do que era agora apenas o corpo do meu pai, engraçado, não me parecia tão frágil e franzino como sempre... também não encontrei no rosto qualquer expressão de tristeza ou aflição...parecia tranquilo e em paz... Fechei a porta e fiquei a olhar para o corpo, toquei... estava quente...por momentos pensei... dorme...Logo sem querer as lágrimas evadem-me o rosto... sem controle começo a chorar " Pai, não me esperaste "morreste-me ... nada consegui fazer. PAI!!!PAI!!! chamei baixinho, na esperança secreta que me olhasses e dissesses, " Deixa-me descansar, estou apenas a descansar"
A porta abre-se a minha mãe, coloca em cima da cama, aquela que deverá ser a melhor roupa do meu velhinho...
É para o vestir? pergunto.
Começo por o despir como se fosse algo natural e assim, quase sem dar conta, acabo por o vestir.
A campainha toca, várias pessoas entram e dizem frases feitas que são próprias para a altura." coitadinho...era tão boa pessoa" não tinha nada que dizer deste Homem" " era tão alegre" "Ainda
ontem nos rimos"
A tarde,
Lá estava o corpo na capela, eu e ele apenas... Foi-me entregue a mim... assim foram muitas das vezes em que foi para o hospital, eu e ele.
Olho para ele, toco-lhe , ajeito o corpo passo a mão no seu rosto ... agora um corpo frio...olho nos olhos ... lembro-me de ter pensado "as pálpebras fechadas para sempre" Assim é a vida! Mas deveria ser de outra forma? seria mais fácil se houvesse tempo para despedir-me? para que todos se despedissem?
O dia parece não ter fim, chegam pessoas da família vindas do Alentejo....trazem a expressão de tristeza estampada no rosto... doi-me ao ver que outras pessoas também sofrem. Custa-me ver um primo que o Abraça quase o arrancando do caixão...No fundo sei que estará bem... mas Pensar que se olha pela ultima vez é triste... Uma tristeza difícil de se explicar...um Adeus para sempre.. ficam as memórias... o toque esse será feito através do coração e do pensamento. Adeus pai! Serei sempre a filha casula, reguila e esgrouviada como ele me dizia... quando era criança, sempre ouvi isto da sua boca: " Esta miúda é rija, rebelde e esgrouviada, poderia ter sido um rapaz, ( era eu quem ia ao futebol com ele, era comigo com quem falava do sporting)o meu pai acrescentava, " por de trás de tudo isto, esta moça, tem um enorme e bom coração!"
Adeus Pai...